Capítulo 03
ORE COMO UM GOURMET – David Brazzeal
CAPÍTULO 3
TORNANDO-SE UM CHEF
“Passamos a maior parte de nossa vida
famintos a uma mesa bem posta
porque não sabemos usar os dons que recebemos.”
―Thomas Keating, The Gift of Life: Death & Dying (“O dom da vida: a morte e o morrer”) (vídeo)
COZINHA NO AR
Assim como o sabor de uma comidinha simples é absolutamente deliciosa após um longo jejum, essa nova prática espiritual também foi. Mas agora eu estava com ainda mais fome.
Foi mais ou menos a esta altura que eu descobri a importância da pequena varanda externa do andar de cima na parte de trás da nossa casa. Um riacho passava por baixo dela, tinha um abacateiro por cima, e atrás estava a floresta tropical urbana que subia pela montanha do Corcovado. Outra coisa maravilhosa daquela varanda eram os ganchos de rede embutidos. Comprei uma rede xadrez vermelha simples e comecei a passar tempo nela.
Lá eu me deitava, suspenso entre o céu e a terra, uma imagem física do lugar espiritual ao qual eu sentia que pertencia. Praticava a leitura da Escritura em pequenas porções, meditando nas palavras, provando e digerindo-as lentamente. A varanda estava se tornando meu lugar sagrado e a rede, um objeto sagrado. Se minha rede rasgasse, por uso ou por ficar na chuva, eu me sentia compelido a parar tudo e ir comprar outra imediatamente.
Deitado lá, querendo passar mais tempo com Deus mas sem saber bem o que fazer, eu começava a experimentar. Suponho que fazia isso por tédio, mas eu realmente não tinha nada a perder. Eu imaginava que estava segurando uma frigideira limpa mas totalmente vazia e não sabia o que pôr nela. Não havia ninguém por perto pra eu impressionar. Deus era o único que iria estar comigo naquele jantar. Como Ele é invisível e não fala muito, eu começava a falar comigo mesmo. E se eu passasse a maior parte de meu tempo nessa refeição apenas adorando Ele? Como seria isso? Como eu faria isso? Talvez essa tenha sido minha fase de chef “insano e louco” que sai jogando qualquer ingrediente na panela e liga o fogo, mas todos temos que começar de algum lugar.
Penso que a maioria de nós traz à culinária um senso adquirido de quais ingredientes combinam especialmente bem e quais não combinam. Todos nós temos nossas próprias experiências de comidas para aproveitar. O desafio é usar o passado sem se prender a ele. Não é assim tão difícil criar um prato novo baseado naquilo que já provamos e experimentamos. Eis um exercício de oração pra começarmos: comece simplesmente dizendo a Deus quão grande e maravilhoso Ele é. Use vários adjetivos como se fossem ingredientes. Explore sua grande variedade de temperos usando nomes dEle, por vezes exóticos e intrigantes. Também sinta-se encorajado ao saber que outros no passado cozinharam os mesmos pratos que você ou similares. Sinta-se à vontade para pegar emprestadas as palavras e ideias usadas em receitas destas outras pessoas.
Me lembro do dia em que descobri que um mestre-cuca do passado tinha cozinhado um prato muito similar à receita que eu estava testando. Não me lembro do livro exato, mas ele terminava com uma oração de São Francisco de Assis, parecida com esta:
Tu és santo, Senhor, o único Deus, e Seus feitos são maravilhosos.
Tu és forte.
Tu és grande.
Tu és o Altíssimo.
Tu és Todo-Poderoso.
Tu, Santo Pai, és o Rei dos céus e da terra.
Tu és Três em Um, Senhor Deus, todo Bondoso.
Tu és Bom, todo Bondoso, Bem Supremo,
Senhor Deus, vivo e verdadeiro.
Tu és amor. Tu és sabedoria.
Tu és humildade. Tu és perseverança.
Tu és descanso. Tu és paz.
Tu és gozo e alegria.
Tu és justiça e moderação.
Tu és toda nossa riqueza, e Tu és suficiente para nós.
Tu és beleza.
Tu és gentileza.
Tu és nosso protetor.
Tu és nosso guardião e defensor.
Tu és nossa coragem. Tu és nossa proteção e esperança. Tu és nossa fé, nossa grande consolação.
Tu és nossa vida eterna, Grande e Maravilhoso Senhor, Deus Todo-Poderoso, Salvador Misericordioso.1
É difícil colocar em palavras quão incrivelmente encorajador isso foi pra mim. Imediatamente, reconheci que era uma erupção de louvor espontâneo de origens antigas com muitos dos ingredientes que estava usando—substantivos, nomes e adjetivos a esmo, mas com uma estrutura de frases repetidas e consistentes. Eu havia criado um prato muito parecido com o de São Francisco de Assis sem sequer notar! Isso me deu a segurança de que eu não estava enlouquecendo. Significava que minhas experiências culinárias intuitivas, de erro e acerto, estavam me levando na direção certa. São Francisco havia criado esse mesmo tipo de espaço espiritual. Ele orava da mesma forma que eu estava orando, mas isso oito séculos antes de mim! Hummm… será que ele também tinha uma rede?
Esses primeiros experimentos foram fantásticos! Logo, fiquei mais poético em minhas palavras. Logo chegou a hora de colocar mais algo na panela. Consigo adorar a Deus sem palavras? Como seria isso? Eu comecei a cantar, inventando melodias simplesmente baseadas em “Aleluia” e outras frases da Escritura. Tentei desenhar e esboçar.
Então tive uma ideia maluca—E se eu perguntasse a Deus como Ele quer que eu O adore hoje? Foi aí que as coisas começaram a ficar interessantes! Comecei a ter leves impressões de Suas respostas. Um dia seria algo assim: Hoje, deite-se prostrado, com o rosto ao chão, não diga nada, só sinta minha glória. Num outro dia—Dance pra mim Dave… um outro Davi uma vez dançou para mim e eu adorei. Ou—Leia pra mim sobre minha grandeza, tanto quanto puder, da forma mais expressiva que puder.
Este mesmo processo começou a afetar as outras formas de oração que eu experimentava naqueles primeiros dias: ação de graças, confissão, intercessão. Mostre-me uma nova maneira de agradecer-Te hoje. Me dê uma ajuda sobre como orar por esta situação. É possível fazer uma confissão de forma divertida? Os experimentos resultantes não eram muito consistentes ou organizados, mas eram todos bons. Era como se Deus tivesse se tornado não somente meu objeto de adoração e ação de graças, mas meu parceiro criativo também. Antes até de saber rotular isso, eu estava descobrindo alguns importantes segredos espirituais culinários diretamente do Mestre-Cuca.
Simultaneamente, eu encontrei nas minhas leituras informações importantes pra mim. Elas se aplicavam diretamente ao funcionamento sistemático da interação criativa espiritual. Me ajudaram a explicar e apoiar o que estava acontecendo dentro de mim.
A primeira foi a simples ideia de que a imaginação é uma coisa boa, um verdadeiro dom de Deus a ser usado e aplicado a minha vida espiritual. Esta ideia veio através da obra de Richard Foster, Celebração da Disciplina2. Na minha adolescência, eu ouvia que a maior parte de minha imaginação era suspeita, que eu não deveria deixar as coisas ficarem muito loucas, mantendo tudo sob controle. A razão disto que me diziam nunca era muito específica, mas sempre sugeria a ideia do controle da luxúria e pecado sexual em potencial.
Então me deparei com outra informação em algum lugar, talvez naquela edição antiga de Misticismo3 de Evelyn Underhill que eu encontrei no sótão de uma biblioteca teológica brasileira. Ela dizia que criatividade e espiritualidade funcionam do mesmo lado do cérebro. Se isso é verdade, é bem natural que elas funcionem juntas. Os profetas e místicos obviamente sabiam desta conexão.
A terceira informação veio de Peter Lord no livro Hearing God4 (tradução livre: “Ouvindo Deus”). Ele removeu o mistério de como Deus fala conosco, afirmando simplesmente que Deus nos fala plantando ideias em nossas mentes. Mais precisamente, quando nós criamos um ambiente onde o espírito está em sincronia com o Espírito de Deus, então estaremos propensos a pensamentos e ideias boas, positivas e úteis vindas de uma fonte muito além de nós mesmos.
Quando eu misturei todas estas coisas, eu entendi. Me dei conta de que realmente há uma interação natural entre minha espiritualidade e minha criatividade. Quando eu entro em espírito de oração, consigo cultivar um espaço receptivo e pedir a Deus ideias criativas que virão melhorar minhas orações. Essas práticas criativas então me permitem entrar num ambiente espiritual de forma muito mais rápida e profunda. Este resultado é um efeito em espiral que leva a dimensões em expansão contínua, englobando tanto espiritualidade mais profunda quanto criatividade aumentada.
Agora já fazem mais de 25 anos desde aqueles dias naquela rede no Brasil. Já me mudei mundo afora um pouco—das cachoeiras refrescantes e areia negra das praias de Guadalupe ao frio de congelar o nariz de Montreal e seus grandes festivais de verão. Troquei minha rede por uma variedade de outros lugares sagrados—salas de vários tamanhos, certas cadeiras ou camas confortáveis, parques, florestas e ocasionalmente os labirintos públicos que eu gosto de criar. Estes dias, Deus e eu cozinhamos juntos num sofá IKEA usado num velho apartamento parisiense com o assoalho mais barulhento que você já ouviu.
A propósito: Ironicamente, eu agora moro a poucos quarteirões da Bastilha em Paris. Por mais de sete anos, madame Guyon foi prisioneira lá por suas ideias radicais que ela colocou naquele pequeno livro, aquele que acenou pra mim e começou a mudar as minhas ideias acerca da prática da oração pra sempre. Ver a Bastilha diariamente me mantém ancorado àqueles primeiros dias de renovação e descoberta. Frequentemente leio dizeres de Guyon para amigos visitantes quando estamos no lugar, hoje marcado com tijolos na rua e calçada onde aquele sinistro castelo medieval, sua prisão, um dia esteve.
Não apenas me mudei geograficamente de onde esta história começou, mas me mudei eclesiasticamente também. Não sou mais um líder de louvor numa igreja tradicional, mas ajudei a iniciar quatro igrejas inovadoras, cada uma única em si.
Também aprendi a terminologia adequada para o que eu passei no Rio. Alguns chamam de “a noite escura da alma”5. Consegui seguir as histórias dos místicos o suficiente para entender que nós partilhamos de uma jornada comum. Sim, parece às vezes ser o modus operandi de Deus—arrastar-nos para períodos de seca ou escuridão, onde “parece” que Ele não está presente. É exatamente este anseio que desenvolvemos nestes momentos que nos permite, direciona, inspira, compele para chegarmos ao próximo nível.
Continuo a convidar Deus para entrar toda vez que eu O ouço bater à porta. Muitas vezes, eu preciso bater à porta dEle também. Tivemos muitas, muitas refeições maravilhosas juntos. Os cardápios variaram, itens novos foram adicionados, e ingredientes diferentes tomaram prioridade em tempos diferentes. Novas receitas criativas foram desenvolvidas, mas algumas mais clássicas ainda permanecem como favoritas.
Agora te convido a se juntar a mim para montarmos uma cozinha básica com Deus. É isto que vamos continuar a explorar na Parte Um. Então, na Parte Dois, descobriremos receitas práticas para você cozinhar seu próprio banquete com Deus.Bom appétit!
1 http://www.faithandworship.com/prayers/
2.Richard Foster, Celebração da Disciplina: O Caminho do Crescimento Espiritual, (Editora Vida, 2008) 3.Evelyn Underhill, Misticismo: Estudo sobre a Natureza e o Desenvolvimento da Consciência do Ser Humano, (Amorc, 2000)
4.Peter Lord, Hearing God (tradução livre: “Ouvindo Deus”) (Baker Books 1988)
5 A Noite Escura da Alma é o titulo de um poema do século 16 de João da Cruz (Editora Verus, 2001)

