Capítulo 04
ORE COMO UM GOUMET – David Brazzeal
CAPÍTULO 4
PONDO A MESA
“O amor se fez convidado
Dentro de meu peito,
Minh’alma se abriu,
O amor banqueteou.”
―Ibn Hazm, O Anel da Pomba (Tradução livre do Inglês)
COMIDA: A METÁFORA DA ESCOLHA
Este livro não é o primeiro a brincar com metáforas ligando a haute cuisine ao Haute Divine. Segue uma tradição bem antiga. Você talvez se lembre de como a Bíblia inicia com uma história falando de uma simples fruta que levou a sérios problemas espirituais pra nós humanos. Mais tarde, o judaísmo antigo foi amplamente formado em torno de festas e celebrações, geralmente ao redor de uma mesa com delícias culinárias representando realidades espirituais especificas. Jesus, ao escolher a forma de fazer com que seus discípulos lembrassem Dele após sua morte, serviu-se da tradição culinária da Páscoa Judaica e serviu uma refeição muito simples, pão e vinho—ambos dos quais, lembrem-se, foram e ainda são metaforicamente carregados.
Nos contos criativos de Jesus, ele usou um banquete como uma metáfora para ilustrar o Reino de Deus. À moda típica de Jesus, no entanto, ele subverte as expectativas ao NÃO descrever um banquete normal com todos aqueles convidados respeitáveis que mereciam estar lá. Não, a imagem verbal que ele pintou do Reino de Deus era de um salão com generoso banquete lotado dos rejeitados da sociedade: os pobres, os aleijados, os boia-fria, os imigrantes, os moradores de rua, as pedintes, os viciados, as prostitutas, os gays, os encapuzados, os zés-ninguém… uma festa bem louca e alucinante, a meu ver! (Veja Lucas 14:12-23.)
Ah sim, e depois ainda tem aquele hábito de Jesus dar de comer a vários milhares de pessoas em uma única tarde1, que, na minha opinião, era uma forma Dele dizer: —Eu queria mesmo é poder sentar com cada um de vocês, um a um, numa refeição agradável; mas já que é fisicamente impossível fazer isso agora, farei um grande banquete e compartilharei com vocês.— É como se a comida se tornasse um símbolo de Sua presença acolhedora assim como fazem hoje os crentes quando observam a Comunhão juntos.
Várias religiões fazem uso de restrições especificas ou jejuam como lembretes espirituais: Muçulmanos têm um mês de jejum do amanhecer ao anoitecer chamado Ramadan; muitos Budistas e Hindus são vegetarianos; Judeus se abstêm de carne suína como também de misturar carne e leite—só para mencionar algumas dessas práticas ao redor do mundo.
Abster-se de alimento físico pode ter um papel importante na obtenção de uma fome por e receptividade a alimento espiritual (como eu pessoalmente vivi); mas em outros momentos significantes da Bíblia, uma refeição mais íntima torna-se uma metáfora para um encontro com o Divino. Considere as histórias contadas nestas três porções da Escritura.
O PRIMEIRO LIVRO
No capítulo 18 de Genesis, há uma história meio estranha de Deus aparecendo para Abraão enquanto ele estava sentado embaixo dos grandes carvalhos de Manre. A história é incomum porque Deus aparece na forma de três homens. (Hummm… Trindade?) Felizmente, Abraão O/Os reconheceu e imediatamente ligou o “modo anfitrião”, convidando-os para se juntarem a ele e Sara para uma refeição. Todos nós sabemos como é receber convidados sem aviso… mas e se fosse Deus vezes três? Diria que é frenético?
Por sorte, Abraão e Sara viveram essa história há alguns milênios, quando o ritmo de vida era bem mais lento. Também, acho que o fato deles estarem no meio do deserto ajudou, pois não havia muitas opções de onde ir. Vemos até que deu tempo pra Sara fazer pães na hora. Abraão falou para ela que usasse a “melhor farinha” (Sabe, benzinho, aquele que guardamos pra quando Deus aparece pra comer conosco). Isso significa que Sara levou o tempo para misturar a massa, batendo-a, deixando-a crescer um pouco para então assá-la. Enquanto isso, os servos corriam atrás da melhor ovelha do rebanho, para abatê-la, acender o fogo e assar. Agora adicione a isso alguns jarros de iogurte de leite de cabra, e você tem uma refeição completa bem saborosa. Aí, enquanto todos estão se deliciando com a comida e com a presença uns dos outros, Deus traz à mesa a notícia de que Sara terá um bebê, mesmo já tendo 90 anos completos de idade. UAU! Que maravilhosa razão para celebrar!
Os Pontos-Chave?
• Deus pode aparecer sem avisar para uma refeição com você.
• Ele pode não se parecer com aquilo que você acha que Ele deveria. • Você deveria já estar aprendendo a preparar essa refeição.
• Essa refeição tem que ser do seu melhor.
• Deus pode vir te dizer algo importante nessa visita.
O LIVRO DO MEIO
Quando criança, aprendi que se você abrisse a Bíblia no meio, provavelmente abriria no livro dos Salmos. E bem no meio do Salmo favorito de todos, o 23, há uma frase que diz: “Preparas uma mesa na presença de meus inimigos.” Não sei quantas vezes li ou recitei este Salmo sem ponderar o que esta frase realmente significa, mas aqui vai meu entendimento dela: quando as coisas estão um pouco tensas, quando a vida não está indo bem o suficiente, quando o potencial para o desastre está na próxima curva da vida, quando seus inimigos estão todos ao seu redor—e até te encarando!—é aí que Deus estira a toalha de piquenique xadrez vermelha e diz: —Aaah, esse é um local agradável. Vamos ficar por aqui um tempinho… só você e eu.
Os Pontos-Chave?
• Mais uma vez, Deus aparece quando você menos espera.
• Ele sabe que, quando a vida fica caótica, é quando você mais precisa Dele. • Deus reafirma Seu amor em meio a circunstâncias adversas.
O LIVRO FINAL
No terceiro capítulo do Livro do Apocalipse, há uma outra passagem muito comentada. Ela retrata Deus à porta de sua vida, chamando por você e batendo à porta. O texto continua, dizendo que, se alguém ouvir a Sua voz e abrir a porta, então Ele entrará e ceará contigo. Nós geralmente focamos na parte do “abrir a porta”, mas eu gostaria de chamar sua atenção para o que acontece depois do abrir da porta. O versículo, na verdade, é escrito a fim de destacar a reciprocidade da relação: “Entrarei e cearei com ele e ele comigo.”
Os Pontos-Chave?
• Ei! Lá está Ele de novo, aparecendo sem avisar—definitivamente mostrando uma tendência.
• Deus obviamente quer esta refeição: Ele chama cada um de nós e bate à nossa porta. • Mas Ele não invade. Ele pacientemente espera que nós o atendamos.
• A refeição é mutuamente benéfica. Evidentemente, Deus gosta tanto destes momentos quanto nós.
Não menospreze esta metáfora da refeição. Deus poderia ter incluído uma variedade de outras atividades aqui:
Virei e te ensinarei grandes coisas.
Virei e usarei sua vida de forma poderosa.
Virei e farei tudo dar certo pra você.
Virei e humilharei você e te colocarei no seu devido lugar.
Virei e descobrirei todos os seus pecados mais profundos e sujos
Mas não! Ele simplesmente disse que queria cear contigo. Respeito mútuo. Vulnerabilidade mútua. Alimento mútuo. Alegria mútua. Lindo isso, não é?
Pense, por um instante, em como isso molda sua imagem mental de como Deus é. Por favor, por favor, jogue fora aquela imagem ruim de um homem velho e zangado que mora no céu, só esperando a hora de pegar a gente fazendo coisa errada. Jogue fora essa imagem pra sempre! O grande e glorioso Deus, o criador de tudo que já existiu e que um dia existirá, encontra seu endereço, aparece sem avisar, espera você se arrumar—tudo isso pra quê? Porque Ele quer sentar e ter uma refeição agradável com você, só você e Ele. Mas por quê? Talvez porque Ele saiba que, se você fizer isso uma vez, vai querer fazer de novo… e de novo e de novo. Já reparou que quanto mais tempo duas pessoas convivem, mais elas se parecem? Pra terminar: cear com Deus gradualmente mudará sua vida.
A NÃO SER… que você estrague tudo!
Mas como você poderia estragar uma situação tão legal quanto essa? Acredite—é possível.
Antes de mais nada, se você NÃO abrir a porta—c’est fini! Estragou tudo. Se você não tomar uma atitude e se arriscar a ver o que está atrás da Porta Número Um… bem, então você nunca saberá o que perdeu, não é verdade?
Você poderia também estragar tudo se abrisse a porta… mas, bem… eu não sei… você simplesmente… como diria isso… não se sente… bem… digno o suficiente… para cear… com um Deus tão magnificente. Certamente, eu já fiz isso! Se esse é você, então pare agora mesmo e volte algumas páginas e releia aquela parte que fala do grande banquete feito para os rejeitados. Ele convida todos nós à mesa! Até mesmo o mais indigno, o mais esquisito, o mais inseguro de nós. E tem mais! Ele sabe moldar essa experiência para que dê certo pra cada um de nós. É como se Ele já soubesse qual nossa comida favorita, e que tipo de restaurantes nós mais gostamos.
Você também pode estragar tudo se abrir a porta mas não deixar o banquete acontecer, porque você se limita a comida “fast-food”, congelada ou processada. Acho que é aqui que muitos de nós estamos presos.
• Fast-food… quando nunca investimos o tempo necessário para deixar o relacionamento se desenvolver.
• Congelada… quando há geralmente muito pouca substância nas nossas orações centradas em nós mesmos.
• Processada… quando nos limitamos a guias devocionais ou orações escritas por outros.
Assim como comer bem fisicamente demanda tempo e esforço, comer bem espiritualmente também demanda. É sobre isso que o resto deste livro fala. Compartilharei algumas ideias simples sobre como expandir o número de pratos entre os quais você pode escolher quando se sentar para esses momentos especiais, como também sugestões práticas para tornar esses momentos mais divertidos, cativantes, criativos, transformadores e profundos.
1 Mateus 14:14-21; Mateus 15:29-39; Marcos 6:30-44; Marcos 8:1-13; Lucas 9:10-17; João 6:1-14 3 Cântico dos Cânticos 2:8-14, 16

