Capítulo 08

ORE COMO UM GOURMET – David Brazzeal

CAPÍTULO 8

CONFISSÃO
Lidando com as realidades da vida

“Espiritualidade não se trata de ser imutável; se trata de ter Deus presente
em meio à bagunça de nossa mutabilidade.”
― Mike Yaconelli, Messy Spirituality (“Espiritualidade Bagunçada”) – Tradução Livre

“Você pode gritar a plenos pulmões ou sussurrar bem baixinho dizendo: Te odeio, Deus.
Isso também é uma oração, porque é real, é verdadeiro e, talvez,
seja o primeiro pensamento sincero que você tenha há meses.”
― Anne Lamott, Help, Thanks, Wow (“Socorro, Obrigado, Uau”) (2014) – Tradução Livre

Ok, confesse… você não tá nem um pouco a fim de ler este capítulo. Eu sei, eu sei, é porque as palavras confessarconfissãoconfessionário e todos os outros membros desta família de palavras… bem, digamos que você não espera ver esses indivíduos chegando na hora do jantar. (Estas palavras, no entanto, têm alguns primos distantes bem divertidos: confete confeitaria são mais interessantes de se ter por perto.)

Essa é a uma família emotiva e não do tipo de emoções felizes e gostosas, mas sim do tipo dramático. Você deve ter visto esses tipos em centenas de programas de TV que tratam de problemas legais e familiares, daqueles que quando o programa chega ao final, alguém se levanta e confessa alguma coisa! Aí, de repente, começam os sobressaltos, lágrimas, algemas, lêem seus direitos, carros de polícia—vocês sabem como é.

Pra muitos, esta família de palavras também é lembrada pelos confessionários sóbrios da cor de amêndoa escura, e dos antigos padres com mau hálito que se sentam do outro lado de uma tela prescrevendo algumas “Ave-Marias” pelos horríveis pecados que pessoas levaram semanas pra conseguir confessar.

Outras confissões destroem famílias, terminam carreiras, perdem eleições. Sejamos francos—todos nós fomos condicionados a não nos sentirmos bem perto desta família de palavras.

No entanto, há uma probabilidade extremamente alta de que, se você estiver lendo este livro, você seja um ser humano. E na qualidade de humanóides, todos nós temos forte propensão a tomarmos decisões horríveis até quando, naquele mesmo momento, percebermos que estas decisões podem estragar nossas vidas, carreiras e os relacionamentos que mais estimamos. Preciso entrar em mais detalhes ou a sua lista de antigos erros já está se formando na sua mente?

Quando fazemos estas tolices, é aí que alguém do “Clã da Confissão” aparece— tipo aquele seu amigo que não tem medo de dizer bem na sua cara aquilo que você menos quer ouvir. Quando alguém desta família da Confissão começa a sussurrar no seu ouvido ou começa a te bater com uma tonelada de tijolos, você lamenta a existência dela. Todavia, algum tempo depois, você irá agradecê-la por te ajudarem a pôr as coisas em ordem.

Em outras palavras, como seres humanos, sempre encontraremos formas novas e interessantes de estragar as coisas, assim como também de relembrar eventualmente das clássicas besteiras que cada um de nós fez em particular. Se acostume, porque isso vai te acompanhar até o fim de seus dias. Se eu puder te dar uns conselhos, te diria duas coisas:

1) Não se puna exageradamente a cada vez que “pecar”. Deus conhece bem nossa natureza; Ele nos criou do jeito que somos. Ele sabe que sempre lutaremos com isso. Aprenda a aceitar-se como uma pessoa falha—Deus certamente te aceita assim. Já aceitei o fato de que de manhã consigo ter os pensamentos mais elevadamente espirituais imagináveis, mas no final do dia, posso ter pensamentos de absoluto desgosto ao ver um homem de rua inconveniente e fedorento bloqueando a passagem na calçada. (Se você precisa de um dever de casa, eis aqui: Faça um estudo dos personagens Bíblicos mais conhecidos e faça uma lista de suas falhas. Tenho certeza que você descobrirá que muitos deles foram pecadores bem piores que eu e você— e.g., Caras, alguns de vocês já erraram com suas esposas, mas duvido que tenham feito com elas o quê Abraão fez com Sara! 1)

2) Confesse o pecado o mais rápido possível. Supere e siga adiante. Estes dois pontos na verdade trabalham juntos. A razão pela qual não queremos confessar imediatamente é porque nós não aceitamos nossas imperfeições e queremos continuar a acreditar que podemos ser seres espirituais quase perfeitos. Nos causa vergonha ter de nos apresentarmos a Deus vez após vez. Supere! Mesmo quando somos admitidamente muito menos do que esperávamos ser, Deus, na mesma hora, nos abraça e nos faz começar a andar pra frente novamente.

Na minha adolescência, a palavra confessar estava associada a pecado inconfesso. Alguns líderes espirituais, na época, me fizeram crer que quase sempre havia em algum lugar escondido de minha mente algum pecado inconfesso que estava limitando o fluir da vitória de Deus em minha vida.

Mais tarde, já um jovem adulto tentando repensar o que seria a oração, me encontrei ainda neste modo padrão, ainda procurando por algum pensamento de luxúria que tivesse esquecido em todos meus outros momentos de confissão.

É claro que há picos de pecados sérios que precisam ser tratados imediatamente e apropriadamente. Pecado inconfesso pode ser devastador para nosso espírito. No entanto, a maioria de nós tem que lidar com o constante “barulho de fundo” da imperfeição e desapontamento pessoal que experimentamos ao viver neste mundo real e caído.

Após alguns anos, graças a alguns diálogos mais profundos e elucidadores com o Clã da Confissão (que em minha percepção anterior queriam apenas me humilhar e me reduzir a nada), eles tiveram a chance de recuperar sua reputação. Fico feliz em dizer que agora somos bons amigos.

Acho que isso começou quando comecei a prestar mais atenção às confissões e credos que líamos na Igreja. Claro que muitos deles são clássicos antigos, mas eu me lembro de descobrir várias versões modernas de confissões que ressoaram no meu interior. Basicamente, confissões e credos são textos formais e bem elaborados sobre o que cremos ser verdade acerca de nós mesmo, nossa fé e nosso Deus. Um dia, tive uma ideia que “saiu do nada” de combinar um credo clássico com um texto informal e não tão bem elaborado sobre o que eu cria ser verdade sobre mim mesmo.

O produto disso foi algo que me ajudou ao invés de me ferir, que me encorajou ao invés de me condenar. Foi como se eu tivesse tirado uma foto de mim mesmo e escrevesse no verso, “O que você vê é o que você obtém“, e a entregasse a Deus. O que aconteceu de maravilhoso, em seguida, foi que Deus me permitiu saber que Ele tinha entendido, que as coisas estavam bem entre nós e aí me deu um grande abraço. Bem, não um abraço, mas acho que vocês me entenderam.

Devo também “confessar” que esta mudança na forma que eu enxergava a confissão veio acompanhada de uma mudança gradual na forma pela qual eu via minha relação com Deus. Acho que envelhecer também ajudou um pouco nisso. O que quero dizer com isso é que a “perfeição moral”, muito embora lutasse por isso, se tornou cada vez menos o alvo de minha fé. Percebi que Jesus nos chama simplesmente para segui-lo, para fazer crescer Seu reino na terra, para tornar-nos Seus pés e mãos neste mundo. Penso que Ele sabe que nós vamos, inevitavelmente, fazer isso como indivíduos falhos (mas continuamente restaurados).

Isso nos leva a outro aspecto importante da confissão, que é a restauração. O papel da confissão é levar-nos à restauração. É a parte desta oração que só Deus pode fazer. Nós fazemos a confissão. Deus é que nos restaura. Confessamos a realidade do que somos, tão danificados quanto estivermos ou tão impuros quanto nos sentirmos. Deus, milagrosamente, nos toca em algum lugar dentro de nossa alma e restaura nosso relacionamento. Este processo muitas vezes me lembra de ouvir o teólogo Jürgen Moltmann declarando que, para ele, a preeminente frase em toda a escritura para compreender quem Deus seria “Eis que faço novas todas as coisas.” (Ap. 21:5). Deus continua fazendo novas todas as coisas, continua renovando e restaurando nosso relacionamento. Permita que Ele faça isso de novo.

Tenha em mente que, às vezes, entre a confissão e restauração é necessária ação de nossa parte—uma ação como largar hábitos espiritualmente tóxicos ou atitudes que permitimos entrar em nossas vidas ou até oferecer desculpas ou retribuição a alguém a quem fizemos mal ou ofendemos. Se você desenvolver uma prática cultivando um ambiente espiritual que inclua confissão periódica, você pode confiar no Pai para te avisar quando uma ação será necessária e apropriada.

Espero que você comece a ver a confissão como menos ameaçadora e mais como uma amiga—uma amiga que ajuda você a cair na real e te permite ser quem você realmente é. Enquanto você pratica a confissão, certifique-se de arrumar o tempo e a sensibilidade para receber, experimentar e abraçar a restauração que naturalmente flui da confissão. As seguintes ideias podem te ajudar a seguir na direção certa.

CONFISSÃO ESCRITA: Escreva uma oração de confissão que seja menos baseada nos seus pecados e fale mais na realidade atual de quem você é… neste momento—assim como este registro num diário: Deus, eu confesso que sou um mero ser humano, sou demasiadamente influenciado pelo medo, fome, sono, dor, etc… Sou, às vezes, inconstante, indeciso, esquecido, arrogante, etc… Posso ser compassivo e egoísta no mesmo dia, espiritual e materialista na mesma hora. Enfim: Preciso de Ti.

CONFISSÃO COM CAFÉ: Após cada gole do seu café matinal, expresse em voz alta uma frase sobre sua presente realidade (sinta-se à vontade para ser brutalmente honesto consigo mesmo): Não tô a fim de fazer isso… gole de café… Ainda tô com sono… outro gole de café… Mas ainda assim vou fazer… mais café… Talvez eu tenha algum potencial ainda não realizado… café… Gosto de ajudar pessoas… café… mas muitas vezes desaponto a mim mesmo… café… Continue até terminar o café todo.

Variação: Uma boa xícara de chá também funciona bem.

CONFESSIO CORPO: Crie com seu corpo uma posição, movimento ou até uma dança que demonstre a você o ato de confissão e restauração. Frequentemente as palavras atrapalham e a comunicação não-verbal precisa fazer o trabalho pesado pra nós.

CANTAR UM HINO: Há alguns hinos clássicos e refrões simples e significativos que nos ajudam expressar nossa confissão a Deus e renovar nossa relação com Ele. Quando estiver adorando em sua comunidade, pegue-os, guarde-os, cante-os e recite-os.

COLEÇÃO DE CONFISSÕES: De igual modo, você pode também descobrir que confissões bem-escritas de outras pessoas, tanto antigas quanto modernas, podem ser um tesouro enriquecedor para seu momento de confissão e restauração. Separe e guarde-as com outros materiais. Quando se sentir inspirado, tente escrever algumas de sua própria autoria.

PROCURA POR SÍMBOLOS: Fique atento a símbolos de confissão e restauração na sua vida diária. Quando os vir, permita-os te levar a este processo. Por exemplo, eu vejo um vaso com uma planta como um poderoso símbolo—Sou terra. Sou sujo. Sou falho e imperfeito, mas mesmo assim algo lindo e que gera vida sai de mim—o que é isso? Como este milagre acontece?

RESPIRAÇÃO: Durante um momento de calma, permita que sua respiração natural simbolize confissão. Quando expirar, pense em uma coisa que você queira confessar e se livrar em sua vida. Quando inspirar, pense nas coisas que quer receber e restaurar em sua vida. Expire a frustração—Inspire a paz. Expire a dúvida—inspire a segurança. Raiva—Amor. Egoísmo—Doação… você captou a ideia.

ESCREVENDO UM DIÁRIO: Um diário, um caderno, as páginas matinais (do livro O Caminho do Artista de Julia Cameron)2, seja o que quiser usar—o processo contínuo e regular de registrar seus sentimentos, falhas, ansiedades e ambições—é definitivamente uma forma maravilhosa de cair na real e manter a confissão como uma rotina em sua vida. Invista em cadernos especiais. Faça seu próprio. Esboce. Cole. Colecione. Admire.

EU SOU/ESTOU: Numa ocasião em que fiz um pequeno momento de “checagem de realidade” (nome alternativo que dou à confissão), peguei meu caderno e, sem pensar muito, escrevi as palavras “Eu sou/estou…” então houve uma longa pausa… Me refiro à pausa porque, provavelmente, assim como você, eu raramente inicio estas pequenas práticas me sentindo totalmente espiritual.

Então, neste dia específico supracitado, eu comecei assim: Eu estou… aqui. Então escrevi: Eu estou… outra pausa longa, mas talvez não tão longa… tentando. Sim, eu estou tentando. Outro Eu estou… com sono. Sim, isso é verdade, mas talvez o café ajude. Eu sou… abençoado. Eu sou… amado. Eu sou… cuidado por Deus. Sim, também é verdade e por isso sou grato. Eu sou… menos que perfeito, eu sou… incompleto. Sim, agora estamos entrando na checagem de minha realidade. Mas apesar disso, Eu sou… útil… ajudador… bondoso… Eu estou… fazendo a diferença… etc.

Nunca deixo de me maravilhar com o quanto estas ideias simples, banais até, podem ser transformadoras. Em minutos, podem potencialmente me levar do “Acho que não vai acontecer nada hoje” a momentos significativos de reflexão e até mesmo àquela faísca de conectividade que se acende entre meu ser espiritual interior e o Espírito do meu Criador. E por isso Eu sou… verdadeiramente grato.

1 Gênesis 12:10-20 e Gênesis 20:1-18
2 Julia Cameron, O Caminho do Artista: A Bíblia da Criatividade (Ed. Sextante, 2017)